fechar
Olá Visitante, seja bem vindo! (Fazer Login)
Buscar por: em:

Login Usuário

Categorias

Matérias :: Mulher Melancia e a redenção da estética feminina brasileira

Fotos da Matéria

Descrição

fechar foto

Há pelo menos um ano que eu pensava em escrever uma crônica sobre a importância da Mulher Melancia na independência ou libertação estética feminina brasileira. Claro que, com isso, não pretendo muita coisa além de uma reflexão informal e divertida sobre o controle da mídia ou até do nosso contexto (o espírito do nosso tempo, que os europeus trataram por zeitgeist) sobre o nosso gosto, sobre o que chamamos de beleza feminina – seja para os homens ou para as mulheres, já que está na relação, e não no indivíduo isolado, a busca pela beleza do corpo.

Não é meu papel aqui, me delongar em uma revisão exaustiva acerca de como a beleza feminina varia de acordo com a época ou com o lugar. Mas para me fazer mais claro, acho imprescindível citar alguns exemplos. A beleza da mulher renascentista se baseava em ancas fartas, barrigas gordurosas e pele bem branca. Na Tailândia, ainda hoje, é possível se encontrar mulheres com os pescoços alongados – sinal de beleza – pela colocação de anéis de latão que podem esticar o pescoço em mais de 25cm. No Havaí, mulheres literalmente gordas, arredondadas são tidas como lindas e boas parideiras. No Japão, até bem recentemente – e ainda hoje, em algumas famílias – mulheres deformam literalmente seus pés, amarrando-os com faixas antes de metê-los em sapatos minúsculos (pés miúdos como referencial de beleza).

Muito provavelmente, enquanto você lê esta crônica, não imagina nenhuma dessas referências como “sua” referência de beleza feminina. Imagina se misturássemos os detalhes belos de todas elas? Uma mulher extremamente branca, de pescoço alongado com 10kg de anéis de metal, gorda e com pés de tartaruga. O fato é que o local e a época vão forjando, de uma forma ou de outra, nosso conceito de beleza. Com exceção do que biologicamente indica agradabilidade ao visual, por ter ligação com saúde, e assim com reprodução e transmissão do gene, como é a simetria e a boa pele, todo o resto é puro tempero cultural. E o sociólogo francês Pierre Bourdieu já denunciava nosso gosto como sendo uma construção que acontece na nossa criação, no nosso meio, na nossa cultura, nas nossas relações. Nosso conceito de belo é uma herança, ou no mínimo uma contaminação.  E não discordo dele. Nos EUA, mulheres de mamas gigantescas são veneradas nas revistas menos familiares, enquanto que no Brasil, o altar se reserva as redondas bundas.

E o mundo todo se preocupa com a saúde das moças, ou nem isso, meninas anoréxicas de até 12 anos de idade que buscam a beleza óssea e desnutrida dos cabides andantes que requebran esquisitamente pelas passarelas da moda do mundo todo. Óbvio que não estou dizendo, com isso, que essa beleza deva ser descartada. Magricelas, de olhos fundos podem ter sua beleza, sim! Afirmar o contrário seria exatamente negar a base do meu argumento, de que a beleza é questão de aquisição de gosto, e sendo assim, variada. Mas o que coloco é que, a partir de um nicho de costureiros europeus que precisavam exatamente disso – cabides para suas roupas (e ouvi isso do dono de uma famosa marca) - esse conceito ou formato de beleza se proliferou pelas antenas do mundo globalizado que exporta culturas, as mescla a ponto de não sabermos mais separá-las com exatidão. E a cultura européia da beleza magra, que nem mesmo na Europa é uma regra, cai no colo dos brasileiros e brasileiras, como sendo a bula papal, a edição final da cartilha da beleza feminina.

Mas não é de hoje que o Brasil tem seus antídotos para esse tipo de investimento (ou ataque). O sincretismo religioso, musical, a diversidade nas artes sempre foi um ponto forte na construção de nossa cultura. E em relação à beleza feminina não aconteceu diferente. Nossa construção se dá pela pele morena das índias, pelas formas acentuadas das negras que vieram como escravas, também com os europeus que se deliciavam com as índias (para ser cunhados dos índios e ter seu apoio, como escravos voluntários). Os senhores de engenho defloravam negras. E nessa miscigenação nascem belezas diferentes, de cores diferentes, de formas diferentes. E assim crescemos nós, diante dos desfiles de diversidades.

Mas a mídia, tanto televisiva quanto impressa, dita modas. Dizem o que é boa tecnologia, o que é boa comida, o que é boa educação, o que é boa mulher [ou melhor, o que é mulher boa]. E os comerciais (com exceção da marca Dove) estão sempre expondo a beleza magra como a verdade estética. Mas eis nossa mais legítima subversora dessa lógica: a Mulher Melancia. Até seu nome soa como nome de herói (ou de um híbrido entre humano e fruta). Nunca achei melancia uma fruta gostosa, mas claro que o nome se refere às formas arredondadas e não ao sabor. Também tenho que lembrar que na minha infância a Gretchen já balançava suas nádegas no programa do Chacrinha, na minha adolescência a lambada trazia dançarinas de coxas grossíssimas,  na minha juventude os grupos de axé desfilavam Carla Peres e outras caudalosas. Agora, o famigerado funk carioca, que musicalmente não é funk, mas uma mistura de rap e música dance, coloca na capa de todas as revistas masculinas a redentora Mulher Melancia. Mas redentora de quê, afinal?

As pessoas crescem seguindo modelos, e as meninas precisam deles. Primeiramente os pais, depois repetem o que as amiguinhas fazem. Por fim esses modelos vêm de lugares mais distantes: professoras, apresentadoras da TV, top-models famosas. Então surge um modelo de beleza totalmente avesso às passarelas da Europa. Suas celulites são veneradas pelos entusiasmados colecionadores de nudez, suas pernas são vistas como torres voluptuosas, seu desprendimento e irreverência (chamado pelos mais moralistas de “safadeza”) é invejada pelas moças mais pudicas, e seguido pelas moças mais ousadas, comumente chamadas de piriguetes.

Assim fica posto que, se de um lado, para ser desejada, para ser linda é necessário ter aparentes pelo menos 87% dos ossos do corpo, por outro se pode ser absurdamente querida, linda e idolatrada tendo tanta gordura quanto as mulheres renascentistas. A diferença da forma, talvez, esteja na malhação: nossas musas neo-renascentistas, de quem a Mulher Melancia parece ser a maior representante, mas poderia citar pelo menos mais 4 grandes nomes [nomes?] têm a carne bem firme por baixo daquela espessa camada de gordura, o que dá às suas formas um desenho totalmente diferente das branquelas de algum quadro do sec. XVI, por exemplo.

Se fica, até aqui, uma nítida sensação da defesa da beleza vulgar – até promíscua – das volumosas “meninas do funk”, antes do fim devo me fazer mais claro. A beleza da Mulher Melancia não tem, para mim, o papel de ditar um novo tipo de beleza, mas de mostrar que não existe um tipo de beleza especifico no Brasil. Se por muito tempo a bunda foi uma preferência mais ou menos ampla dos homens brasileiros, hoje as mulheres se enchem de silicone para não terem o busto desproporcional às ancas. Altas, baixas, brancas, negras, bundudas, magrelas, peitudas... são vários os modelos de beleza, toda beleza é possível, e nenhuma nudez será castigada.

 

Ricardo Borges

Comentar

Classificação:   Visualizaçõoes: 17039

Publicada por: Ricardo Borges, em: 23/08/2009 01:54:46

Comentários